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Cronica e arte

CRONICA E ARTE  CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869,  14882-010, Bairro Aparecida Jaboticabal SP
DANDO O AR DA GRAÇA Toda sexta feira era esperada por mim como um dia especial. Era o dia que meu pai contava historias de sua vida. Eram histórias de lutas, de vitórias, derrotas, engraçadas e de fantasmas que apareciam, ajudavam e depois iam embora. Lembro-me bem, eram sempre as mesmas histórias, mas gostávamos de ouvi-lo contar, sempre havia um detalhe novo a cada conto nos mesmos contos. O fogão de lenha no quintal que também servia para esquentar água para o banho era alimentado por lenha e gravetos que eu recolhia durante a tarde. O fogo era aceso pelas 16h. O banho era de canequinha e bacia. Tínhamos uma sanfona em casa. Meu pai arriscava algumas teclas, mas quem dava o show era meu irmão. Ah! Pela primeira vez ouvi sendo tocada na sanfona a música “Saudades de Matão”. Pela noite adentro então, prestávamos atenção nas histórias de meu pai. Ele fazia o relato com entonação de vozes, arregalava os olhos e abrilhantava com efeitos sonoros. Era muito legal. Fazia frio sempre, as vezes menos, as vezes mais. Morávamos perto do rio e a serração começava a baixar. Nada de energia elétrica. Nada de muros, portas e janelas. Nossa casa tinha apenas as paredes e o telhado e era de chão batido. Lembro-me sempre que minha mãe jogava água e cinzas brancas no chão para não sujar os pés.  A comida toda era feita no fogão a lenha. Panelas de Ferro, canecas de latas com as asas rebitadas que meu pai fazia. Lembro-me do gosto da limonada feita com limão cravo. Era saborosa e muito forte. O limão corroia a lata e a limonada ficava com o gosto de ferrugem. Nos meses de Junho e Julho era mais frio. Eu tinha uma blusa de lã verde água, com uma gola bem comprida que cobria a nuca e as orelhas. Precisava ser usada com uma camiseta por baixo, se não, dava coceira. Apareceu por lá numa destas noites um velho de barba e cabelos brancos. Usava uma roupagem rota, e de chapéu de palha. Pouco se entendia o que ele falava. Ele se apresentou com o nome de Sr. Mario. Tocava muito bem a sanfona, e executava com maestria tipos de musicas de diversas regiões do mundo: Tango, Tarantela, Boleros e outros estilos musicais bem divertidos. Quase amanheceu em nosso quintal naquela madrugada. Jantou, aceitou alguns pães que minha mãe ofereceu e foi embora. Nunca mais o vimos. Acredito que aquela figura saiu de uma das histórias que meu pai contava e resolveu dar o ar da graça.    
CONTOS & PIPOCA
João Martins Neto
FOTOS  Facebook do autor Pexels e foto da internet trabalhada pelo autor